Novo começo num fim de ano
E agora minha nova casa é Salvador de novo. A cidade que, há mais ou menos cinco anos, eu escolhi pra morar. Naquela época eu nem imaginava o que estaria fazendo agora. Só achava lindo estar voltando pro lugar onde nasci e que admirava à distância.
Já contei essa história a muita gente, porque foi mesmo motivo de orgulho: quando eu vim pra cá fazer o vestibular, eu morava em Vitória, estava terminando o 3o. ano do ensino médio, e tinha me inscrito em mais duas universidades, além da UFBA: a UFES e a UFMG. Só me inscrevi mesmo, porque até hoje não faço ideia de como foram as provas aquele ano: eu só fiz a da Ufba, que era a primeira, e fiquei em Salvador direto, com as roupinhas mesmo que tinha trazido. Vim com minha amiga Mari Grobério, que também morava em Vitória na época, e ficamos na casa do meu avô Cedar pra fazer a primeira fase.
Gostei tanto de fazer a prova. Em vez de ficar nervosa, ficava toda hora olhando pela janela do PAF 1 (ainda desconhecido pra mim na época) e vendo as árvores. Tudo era pra mim inspiração. A adolescência traz alguns sentimentos exagerados, até a raiva às vezes, mas também o encanto, o que foi muito importante pra mim naquela época. E então, com o resultado positivo, eu convenci minha família que queria e poderia me instalar aqui. Salvador era pra mim o universo que eu queria desvendar, uma grande novidade, algo maior e mais profundo do que tudo o que eu conhecia.
Quatro anos se passaram, desde que eu entrei na Universidade Federal da Bahia, e mais quase um ano desde que eu terminei o curso. Passa rápido, mas também calmamente, o suficiente pra aproveitar o que se quiser. Cada um aproveita como pode. Eu fiz a minha parte, mas poderia ter feito mais. Ao mesmo tempo, a gente sabe que só faz o que está a nosso alcance num determinado momento.
Quando eu tinha só 16 anos eu achava que podia mudar o mundo, mas com uma ingenuidade sem fim. Viajei demais nos meus próprios sonhos, sem nem tentar transformar sentimentos em passos definidos. Antigamente eu era mais sistemática, tinha uma agenda com etapas pra tudo o que eu fazia. Aos poucos eu fui perdendo a organização e o ânimo de realizar coisas; a gente se perde sem perceber.
E foi um pouco disso que eu reaprendi esse ano viajando. Foi tudo tão lindo, mesmo nas partes difíceis e confusas. Isso é assunto pra vários textos e vários pensamentos, mas o foco hoje é no fato de que eu estou aqui, no lugar onde comecei tudo isso, exatamente na casa do meu avô, como há cinco anos, escrevendo e pensando nessas coisas. Sou outra pessoa agora, mas com todas as lembranças do que já fui e já fiz, de cada transformação, a lembrança de cada sensação, medo, insegurança e também das forças e objetivos alcançados.
Salvador à primeira vista não mudou muito, acho que mudou mais minha percepção de alguns problemas da cidade que, triste, eu vejo piorarem e não sei o que fazer pra ajudar. Vou percebendo, com medo, que viro mais uma pessoa fechada no seu universo, com medo de ir e vir, como cada vez mais gente se sente.
Não há muita explicação para a forma que a gente aprende a lidar consigo mesmo e com o mundo. São processos internos motivados por acontecimentos externos. Agora como pessoa me sinto mais forte, como alma, mais equilibrada, como psique, mais consciente do inconsciente. Pode parecer brega, mas não tem como dizer de outra maneira.
Com novos olhos eu encaro as ruas, avenidas, pessoas e detalhes ao meu redor, e penso no agora o que estou fazendo. É um novo começo nesse fim de ano, um ciclo que se fecha pra outro poder se abrir. Nunca uma repetição, mas uma novidade ambientada num lugar conhecido. Aqui estou de novo, e não adianta tecer comentários sobre aqui ou acolá. Só cabe viver e conhecer.
Digo bom dia a Salvador, que há quatro ou cinco dias (depois de quatro ou cinco anos) é minha casa de novo. Digo um olá a todas as lembranças e a verdade do que ficou em mim desse ano que passei fora daqui. E também o que ficou de todos os anos até hoje, uns acumulando experiências aos outros. Acolho meus novos hábitos e formas. Acolho tudo o que já está aqui comigo.
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