Uma sexta-feira qualquer

Precioso é uma palavra que remete ao preço das coisas.
Precioso é uma palavra que remete ao preço das coisas? (é) Ao que tem valor?
(aliás,) O que tem valor?

Quais são os momentos preciosos dessa vida? São aqueles que esperamos de fora, ou aqueles que transformamos por uma disposição interna?
Podemos esperar algo pra vir mudar o dia, a semana, a vida. Se for assim, a espera não tem prazo. Pode chegar agora, daqui a cinco minutos ou pode demorar horas, dias, meses.
Se a gente mesmo tentar mudar, fica um pouco mais fácil. Bem mais fácil. Concentrar. Visualizar o que se quer, o sentimento que valorizamos.
Hoje a gente parece mais um monte de sacos de batata, levados pelas coisas que nos cercam, pelos compromissos, pela sensação dos outros. Parece que tudo inunda a gente. Se o mundo fede, a gente fede. Se alguém faz uma coisa errada, a gente sente tanta raiva que faz errado também. Por quê isso, por quê isso? É insano.

Vivemos carregados e não sabemos como descarregar. Sabemos quem somos em um instante, e depois já não sabemos mais. Algo muda e tudo é levado junto, como num vendaval. Qualquer ventinho é capaz de levar nossa alegria, nosso viço, nossa energia e luz.
Precisamos lembrar um pouco mais de quem somos, nosso íntimo, nossos valores. Ou pelo menos, precisamos lembrar que temos valores. Se não, tudo vira poeira, a vida passa rápido demais e a gente vira barcos e mais barcos à deriva.

Acho que a gente precisa criar um esquema interno de elevação, sabe? Se o mundo está mudando tanto - pra melhor? -, por que ainda vivemos atolados por maus sentimentos nas grandes cidades? Por que continuamos nos atrapalhando, ao invés de nos ajudar? Por que tornamos as coisas tão difíceis para o outro? Por que não facilitamos aqui? - lá na frente, quem sabe, um anjo vem e facilita as coisas pra nós.

Hoje eu estava trabalhando num hospital, correndo atrás de notícia. Fui procurar uma, e acabei achando outra. Porém, as coisas não são tão fáceis assim, tudo é regido por regras, tudo tem suas malandragens, tudo é mediado. Em meio a dificuldades e depois de um não, me vem um velhinho, com cara de perdido e um celular na mão, e me pergunta: "minha filha, você consegue ver pra mim que número é esse? Não tô conseguindo enxergar direito". Eu olhei, tava escrito 192. Eu disse: "moço, aqui só tem 192. Você tá procurando um de outra pessoa, né? Tem aqui embaixo um Nando* (não lembro qual era o nome), é esse?". "É". Ok. O número é o seguinte: 8863-6754*" (não lembro do número e nem diria aqui, é claro). O velhinho pediu minha caneta, pediu pra eu repetir, e anotou na mão. No final, repetiu pra ter certeza, olhou pro meu rosto e disse: "Obrigada minha filha. Tudo de bom pra você e pra sua família". "Obrigada, pro senhor também".

Não sei o que o velhinho estava fazendo lá, quem ele estava esperando. Nem com quem estava. Só sei que eu talvez tenha ajudado ele em alguma coisa. Com a dificuldade dele em enxergar, eu abri uma outra frente no meu dia. Ele me ajudou a olhar à minha volta com outros olhos, mesmo nos momentos em que a gente reconhece que ainda tem muito pra aprender e que as coisas não são fáceis. Aliás, nada é fácil. Estava falando de trabalho, mas posso dizer também de saúde, de amor, de educação. A gente é falível em tantos, mas tantos pontos... Só que também é preciso aceitar as circunstâncias, na hora em que elas vêm. E assim se entregar ao que é, em vez de sofrer só de pensar no que pode (ou não pode) ser.

"Tô explicando pra te confundir
Tô te confundindo pra esclarecer
Eu estou iluminado pra poder cegar
E estou ficando cego pra poder guiar"

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