Debaixo de teto
Ficar debaixo de um teto o dia inteiro.
Ela ficava. Se colocava ali, parada, instável, frágil, sem um plano, sem uma vontade específica, sem nada que a tirasse daquele estado de mesmice mental, espiritual e física.
Nada além da televisão, dos papéis velhos, revistas e livros, todos misturados, aguardando serem lidos, a cada dia revirados, mas nunca finalizados.
Ela deixava de fazer as coisas e ia anotando suas repetições dia após dia: o que não foi feito hoje, pode ser feito amanhã. Ela já sabia que não faria nada do que tinha anotado, apenas anotava por costume.
Antigamente, ela fazia muitas coisas e tinha muitos sonhos. Viajar, cantar, fazer uma revolução. Saber das coisas, escrever sobre elas e conhecer muita gente.
Nada disso poderia ser concreto, já que ela apenas sonhava, não sabendo como colocar nada daquilo em prática. Todas as suas vontades permaneciam dentro de sua própria mente: aquele crânio era onde tudo acontecia, e apenas acontecia ali.
Admirava o sol, admirava o céu azul, assistia a programas na televisão, séries e filmes. Achava que tudo aquilo poderia de repente lhe trazer um estalo e mudar sua vida, mas todo dia acabava sendo igual e nada mudava, nunca.
Ela até se sentia feliz, mas não extasiada. Os poucos momentos de êxtase vinham da literatura, quando lia trechos que traziam um sentimento de catarse de seus próprios pensamentos, e as emoções dos personagens se tornavam suas. Ela pensava que, nesses momentos, passava a enxergar o mundo ao seu redor em estado da graça, mas o mundo ao seu redor era apenas o apartamento e os prédios que enxergava através da janela. Nada mais. O que mudava era se o dia estava nublado ou ensolarado. Depois, a noite chegava e ela fazia planos: "amanhã vai ser diferente".
É claro que nada mudava. O dia seguinte poderia até ser mais agitado, mas nada demais.
Ela continuava debaixo daquele teto, tentando se animar, tentando achar vontade para sair, tentando ver com animação os limites da cidade onde morava. Não saía a pé, não caminhava por caminhar, não ouvia música no walkman, porque tinha medo que roubassem dela. Quando saía a pé, evitava cruzar com tipos estranhos, andava rápido quando via alguém com cara de drogado ou de mendigo, e seguia em frente até seu destino. Quando chegava lá, não via a hora de voltar para casa.
Sua coluna doía dia sim, dia não. Tinha um tapete de ginástica, mas nunca o usava, exceto naqueles dias em que finalmente se inspirava com alguma passagem de literatura.
De trabalho? Não gostava muito do seu. Achava que um dia um outro estalo, dessa vez profissional, iria trazê-la o significado de tudo, de sua missão, e ela deixaria de sentir falta de quando era adolescente. Quando via filmes e novelas, sempre gostava da vida dos estudantes, que sempre tinham mais energia e vidas amorosas mais quentes.
Quanto a si mesma, não sabia como arranjar essa energia do novo, era algo muito instável.
Permanecia debaixo de teto. Não pegava sol, não dançava, não cantava, não encontrava os amigos. Lia no jornal as programações culturais da cidade, mas não ia a nenhuma.
Continuava, enfim, a sonhar: cinema, teatro, livros, com tudo aquilo ela gostaria de trabalhar... Mas não sabia por onde começar e deixava a fantasia entreter sua mente no percurso que a levaria, enfim, até o fim de seus dias.
"I couldn't tell you why she felt that way, she felt it everyday
I couldn't help her
I just watched her make the same mistakes again"
Ela ficava. Se colocava ali, parada, instável, frágil, sem um plano, sem uma vontade específica, sem nada que a tirasse daquele estado de mesmice mental, espiritual e física.
Nada além da televisão, dos papéis velhos, revistas e livros, todos misturados, aguardando serem lidos, a cada dia revirados, mas nunca finalizados.
Ela deixava de fazer as coisas e ia anotando suas repetições dia após dia: o que não foi feito hoje, pode ser feito amanhã. Ela já sabia que não faria nada do que tinha anotado, apenas anotava por costume.
Antigamente, ela fazia muitas coisas e tinha muitos sonhos. Viajar, cantar, fazer uma revolução. Saber das coisas, escrever sobre elas e conhecer muita gente.
Nada disso poderia ser concreto, já que ela apenas sonhava, não sabendo como colocar nada daquilo em prática. Todas as suas vontades permaneciam dentro de sua própria mente: aquele crânio era onde tudo acontecia, e apenas acontecia ali.
Admirava o sol, admirava o céu azul, assistia a programas na televisão, séries e filmes. Achava que tudo aquilo poderia de repente lhe trazer um estalo e mudar sua vida, mas todo dia acabava sendo igual e nada mudava, nunca.
Ela até se sentia feliz, mas não extasiada. Os poucos momentos de êxtase vinham da literatura, quando lia trechos que traziam um sentimento de catarse de seus próprios pensamentos, e as emoções dos personagens se tornavam suas. Ela pensava que, nesses momentos, passava a enxergar o mundo ao seu redor em estado da graça, mas o mundo ao seu redor era apenas o apartamento e os prédios que enxergava através da janela. Nada mais. O que mudava era se o dia estava nublado ou ensolarado. Depois, a noite chegava e ela fazia planos: "amanhã vai ser diferente".
É claro que nada mudava. O dia seguinte poderia até ser mais agitado, mas nada demais.
Ela continuava debaixo daquele teto, tentando se animar, tentando achar vontade para sair, tentando ver com animação os limites da cidade onde morava. Não saía a pé, não caminhava por caminhar, não ouvia música no walkman, porque tinha medo que roubassem dela. Quando saía a pé, evitava cruzar com tipos estranhos, andava rápido quando via alguém com cara de drogado ou de mendigo, e seguia em frente até seu destino. Quando chegava lá, não via a hora de voltar para casa.
Sua coluna doía dia sim, dia não. Tinha um tapete de ginástica, mas nunca o usava, exceto naqueles dias em que finalmente se inspirava com alguma passagem de literatura.
De trabalho? Não gostava muito do seu. Achava que um dia um outro estalo, dessa vez profissional, iria trazê-la o significado de tudo, de sua missão, e ela deixaria de sentir falta de quando era adolescente. Quando via filmes e novelas, sempre gostava da vida dos estudantes, que sempre tinham mais energia e vidas amorosas mais quentes.
Quanto a si mesma, não sabia como arranjar essa energia do novo, era algo muito instável.
Permanecia debaixo de teto. Não pegava sol, não dançava, não cantava, não encontrava os amigos. Lia no jornal as programações culturais da cidade, mas não ia a nenhuma.
Continuava, enfim, a sonhar: cinema, teatro, livros, com tudo aquilo ela gostaria de trabalhar... Mas não sabia por onde começar e deixava a fantasia entreter sua mente no percurso que a levaria, enfim, até o fim de seus dias.
"I couldn't tell you why she felt that way, she felt it everyday
I couldn't help her
I just watched her make the same mistakes again"
Uma história que ninguém gostaria de protagonizar...
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