O título é: por que o teatro entrou na minha vida em 2012


No início do ano eu tinha 22 anos e desesperanças em relação ao futuro.  Depois de voltar de um tempo fora de Salvador e da Bahia, em uma temporada que, depois de vivida, parecia um sonho, eu me vi diante de várias interrogações. Aos 22, já me achava velha porque, na minha cabeça, a ideia que eu tinha da possibilidade de querer mudar de profissão parecia impossível pra mim. “Não posso mudar, estou presa nas minhas escolhas, pra onde vou?”. Um sentimento de vazio e de queda num abismo interior era o que permeava minhas noites.

Nesse processo, algumas coisas foram surgindo, pra poder se aglomerar e, agora que estou no fim do ano, eu poder perceber no que elas dariam. A primeira delas foi a possibilidade de entrar num curso de teatro. Quando eu era criança, era bem extrovertida, mas ao passar do tempo e principalmente da faculdade, fui me fechando nos meus pensamentos e no meu mundo interno. Então o curso de teatro me dava medo agora, muito medo, só de pensar. Mas eu tinha vontade – seja porque era um daqueles sonhos que a gente nutre, um sonho romântico, seja porque uma de minhas paixões antigas me dizia isso com muita frequência, que eu precisava fazer teatro, entrar no teatro, ser atriz. Um exagero da parte dele, mas a frase dita por uma antiga paixão nunca perde totalmente a força, ainda que a paixão tenha ido embora no vão das escolhas e dos novos amores.

Uma amiga comentou sobre algo que o professor dela de teatro estava fazendo, no aniversário de outra amiga, em março. Ouvi a palavra “professor de teatro” e liguei minhas antenas. Quando pude, perguntei: e vai ter curso? Quando? Como faz pra entrar? Ela me explicou e já disse do monólogo - gelei de medo. Na época eu ainda não tinha emprego fixo e, mesmo passando perto da Casa do Comércio várias vezes, só quase no fim das inscrições tomei coragem de entrar lá.

Vieram as seleções: as dinâmicas, o monólogo. Não tinha esperança de entrar porque sabia que tinha ido muito mal, ficado nervosa, gaguejado. Como iria se repetir muitas vezes depois. Mas vi meu nome na lista e vibrei. 

Assim, tudo começou, de fato, em maio. O horário das aulas foi combinado, o tamanho das turmas, detalhes sobre as aulas e a duração do curso, conversas animadas, comentários importantes sobre a necessidade da dedicação.

Vou enrolando no texto pra contar o percurso todo, mas a pergunta lá de cima precisa ser respondida e ela é: por que em 2012? Por que em um ano tão louco, instável de sensações, sentimentos, novidades, incertezas?

A resposta é: por isso tudo.

Em 2012 eu passei dos 22 me sentindo velha pra 23 me sentindo várias coisas. Em certos momentos, iluminada e agraciada por ter conseguido um emprego legal (em abril) e por ter pessoas amadas ao meu lado. Em outros, acabada com as novas gorduras, celulites, varizes, horas extras no trabalho que eu nem me sentia capaz de executar. Não me sentia apta, me sentia medrosa - no trabalho e aos poucos também no teatro. Em outros momentos, me senti vazia de novo, com dúvidas sobre a vida e falta de planos. Depois, cheia de coisas pra fazer no trabalho – quando finalmente passei a me sentir mais segura – e no teatro, o sentimento de renovação. Mais pra frente ainda, quase no fim do ano, as coisas foram começando a se iluminarem mais e eu fui me sentindo um “alguém” de novo, eu, com meus defeitos, qualidades, potencialidades, medos, curiosidades.  Novas possibilidades foram surgindo, novas ideias em várias áreas da minha vida. As cenas, improvisações e exercícios feitos durante as aulas do Sesc foram aos poucos interferindo na minha relação com as pessoas, na minha relação comigo no sentido de saber um pouco melhor como me colocar nas diferentes situações. 

Depois de certas aulas, o cansaço que eu sentia dava lugar a uma sensação de frescor, de vigor na minha alma, no meu coração. Descobri a magia do teatro, do envolvimento, da entrega. Como muitos disseram, definir é difícil, mas a gente pode definir e redefinir com o passar do tempo. Sendo assim, me arrisco a dizer que o teatro é duas coisas: entrega e presença.

Entrega e presença são, afinal, como a vida deve ser, mas nem sempre é. Entrega e presença também são meditação, são percepção do ser, do estar, do viver aqui e agora. São estandartes da vida, do movimento, da alegria. E o teatro ajudou a trazer isso de volta a minha vida. Não tenho certeza e por isso não posso dizer se foi só ele; tudo na vida é um processo, é um conjunto. Ele e outras coisas, em sincronicidade, foram aderindo uma a outra, e se tornando o amor, o sentimento, a emoção que sinto a cada momento. Hoje eu vivo intensamente seja qual sentimento for, às vezes até demais: alegria, tristeza, empolgação, depressão. Precisamos controlar, mas como diz Ramon é melhor ter demais do que não ter.

A sede de viver está presente, sim senhor. Nas suas mais variadas proporções e acontecimentos.
Hoje (dia 10.12.12), dez dias antes do nosso recesso de fim de ano, eu queria muito falar, mas não falei porque não fui chamada e fiquei com vergonha de pedir. Mas na verdade não era vergonha, era medo, mas medo de me embolar em tanto pensamento (como estou embolando agora no papel) e acabar não dizendo nada. É porque é muita coisa.

Como por exemplo, preciso dizer que o teatro me impulsionou a acreditar no poder fazer, no poder desenvolver. Com a coragem do teatro eu confiei que passaria num curso lindo sobre crítica de arte, e passei. Lá, aprendi muitas coisas que se aplicam tanto a minha vida de jornalista como a minha vida na arte, no teatro, seja como atriz, seja como dançarina, como escritora, sei lá. (Isso porque já fui ou sou um pouco de tudo isso).  

O difícil é conhecer o caminho; uma vez conhecido, a gente vai sempre. O teatro e a reflexão me fizeram ter gosto pelo experimentar, pelas diferentes nuances do que se faz num palco, do que se pode explorar do que já foi feito pra criar coisas novas. Se antes eu era acomodada e não ia ao teatro, agora isso está virando ritual, quase uma religião. Mas afinal, o que é religião se não presença e entrega? É, essas duas palavrinhas vão longe...

Já está respondido, então? É tudo isso aí. 2013 vem vindo e mais coisas virão. Eu acredito na Iluminação de 2012 e em tudo o que ele trouxe e vem trazendo. Afinal de contas, na lista das diferentes sensações deste ano eu preciso registrar que a alma se libertou, a mente abriu e o corpo está no movimento...

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