Sobre o choque de realidade
Assim como meu tio, que saiu de casa pra pedalar com os amigos e só voltou um mês depois de um acidente que poderia tê-lo deixado em estado vegetativo ou lelé pra sempre, eu voltei não de onde fui levar uma encomenda, num bairro vizinho a 10 minutos da minha casa, mas da delegacia onde precisei ir depois de ter uma faca apontada no centro do meu pescoço.
A rotina de um dia que era muito bom é arrastada pelo choque de realidade, ou pelo choque de rotina, quando os planos que você fez para aquele e os próximos dias são de certa forma - em maior ou menor intensidade, a depender do caso - interrompidos por um acaso, descuido ou certeza do destino. Em vez de olhar a foto que um amigo havia postado fazendo graça no facebook e chegar em casa 7 minutos depois, ainda achando graça, pra comer alguma coisa e voltar a estudar, eu só tive tempo de olhar rápido o que meu amigo postou para em seguida entregar celular, relógio e dinheiro para o assaltante-que-se-passava-por-mendigo-e-colocava-peixeiras-em-pescoços-alheios. Em vez de ir pra casa de boa, eu ia pra delegacia chorando, ligando pra namorado, pai, mãe. Podia ter sido diferente, eu podia ter batido o carro e ficado lelé ou em estado vegetativo ou poderia ter brigado com alguém no trânsito e levado um tiro e morrido, ou quem sabe ter sido assaltada a mão armada e levado um tiro, ou quem sabe ter sido sequestrada e depois disso nem sei o que aconteceria. Mas, como sempre, a mente se foca em "poderia estar de vidro fechado e ir pra casa de boa comer e estudar".
É engraçado porque segundo me contaram tias, meu tio, quando na UTI há dois meses, ficava reclamando que tinha que sair dali porque tinha muita coisa pra resolver. É engraçado porque a gente não aceita as coisas que acontecem de repente, os humanos que aceitam são pessoas evoluídas. Num livro que li há algum tempo e que me ajudou por muito tempo a ser mais tranquila, mas que deve estar precisando de uma releitura porque já não tá mais funcionando, o mestre-autor dizia que é preciso não resistir ao que é. E o que é, é. Resistência causa sofrimento. "A dor é a vontade de não sentirmos dor"? Acho que sim…
Não consegui dormir direito preocupada, prolongando o sofrimento daquele menos de um minuto, sofrimento muito pequeno na verdade perto do que poderia ter sido, e tristeza muito maior na verdade depois do acontecido do que na hora. Na hora não é nada, só adrenalina, nervosismo e risco de ser esfaqueada. Se fecho os olhos e imagino que, por um pouco mais de raiva provocada no assaltante pela minha demora em pegar o dinheiro eu poderia ter sido esfaqueada, choro. E assim o dia vai passando enquanto meu estado emocional pode ir melhorando aos poucos, e vai melhorando aos poucos. Assim como quando você termina um namoro e fica chorando toda hora, depois chora alternando com momentos bons, depois fica bem e chora só um pouquinho de noite em certos horários. O trauma vai apaziguando… É assim que tem que ser, né?
Em casa tudo continua bem, só o que tá estranho é a minha cabeça que teima em buscar mais problemas, como a possibilidade remota de o assaltante ou algum comparsa dele ou o traficante pra quem ele entrega o celular seja um gênio do crime e roube minhas fotos de família, agenda e ameace algo ruim como um sequestro ou algo assim. É a mente entrando no jogo que ela gosta, de manter-se ocupada e causando tumulto na alma, e mesmo que todos me digam pra ficar calma eu não fico, até mesmo quando já liguei pra operadora e bloqueei o funcionamento do próprio aparelho. Essas atitudes você toma e elas demoram um delay ainda pra dar resultado no apaziguar do espírito, mas uma hora bate.
Choque de paz Acho que o que a gente tá precisando mesmo é de um choque de realidade, de paz, de entendimento e de compreensão… O que significam essas palavras? Só cada um que lê ou escreve ou sente pra saber. Realidade de ser realista sem ser pessimista nem otimista demais, de saber que se dá sorte algumas vezes e outras se dá azar. Paz pra poder seguir em frente e, depois de mais de 12 horas, voltar àquele estudo e trabalho interrompido pelo choque de realidade. Entendimento pra entender que a vida é surpresa e pode ser muito pior do que se espera, assim como também pode ser melhor. E compreensão pra entender tanto a dificuldade de se seguir em frente quanto a necessidade disso.
Estou aqui escrevendo como sempre fiz desde os sete, oito anos de idade, escrevendo pra entender, como medito pra entender, como às vezes rezo sem ser religiosa pra atingir a paz, pra guardar um pouco de divindade na alma. Isso é um bom sinal, estar aqui escrevendo, como sempre é…
Que possamos viver bem apesar dos choques de realidade que a vida nos traz todos os dias. E conviver com notícias ruins como a doença de um ente querido, e com a morte de um ente querido de uma pessoa querida, como eu fiquei sabendo ontem logo depois que fui assaltada. E que a alma das pessoas tenha paz. E que a gente ainda possa ser forte independentemente disso. E que as esperanças não sejam finitas.
A rotina de um dia que era muito bom é arrastada pelo choque de realidade, ou pelo choque de rotina, quando os planos que você fez para aquele e os próximos dias são de certa forma - em maior ou menor intensidade, a depender do caso - interrompidos por um acaso, descuido ou certeza do destino. Em vez de olhar a foto que um amigo havia postado fazendo graça no facebook e chegar em casa 7 minutos depois, ainda achando graça, pra comer alguma coisa e voltar a estudar, eu só tive tempo de olhar rápido o que meu amigo postou para em seguida entregar celular, relógio e dinheiro para o assaltante-que-se-passava-por-mendigo-e-colocava-peixeiras-em-pescoços-alheios. Em vez de ir pra casa de boa, eu ia pra delegacia chorando, ligando pra namorado, pai, mãe. Podia ter sido diferente, eu podia ter batido o carro e ficado lelé ou em estado vegetativo ou poderia ter brigado com alguém no trânsito e levado um tiro e morrido, ou quem sabe ter sido assaltada a mão armada e levado um tiro, ou quem sabe ter sido sequestrada e depois disso nem sei o que aconteceria. Mas, como sempre, a mente se foca em "poderia estar de vidro fechado e ir pra casa de boa comer e estudar".
É engraçado porque segundo me contaram tias, meu tio, quando na UTI há dois meses, ficava reclamando que tinha que sair dali porque tinha muita coisa pra resolver. É engraçado porque a gente não aceita as coisas que acontecem de repente, os humanos que aceitam são pessoas evoluídas. Num livro que li há algum tempo e que me ajudou por muito tempo a ser mais tranquila, mas que deve estar precisando de uma releitura porque já não tá mais funcionando, o mestre-autor dizia que é preciso não resistir ao que é. E o que é, é. Resistência causa sofrimento. "A dor é a vontade de não sentirmos dor"? Acho que sim…
Não consegui dormir direito preocupada, prolongando o sofrimento daquele menos de um minuto, sofrimento muito pequeno na verdade perto do que poderia ter sido, e tristeza muito maior na verdade depois do acontecido do que na hora. Na hora não é nada, só adrenalina, nervosismo e risco de ser esfaqueada. Se fecho os olhos e imagino que, por um pouco mais de raiva provocada no assaltante pela minha demora em pegar o dinheiro eu poderia ter sido esfaqueada, choro. E assim o dia vai passando enquanto meu estado emocional pode ir melhorando aos poucos, e vai melhorando aos poucos. Assim como quando você termina um namoro e fica chorando toda hora, depois chora alternando com momentos bons, depois fica bem e chora só um pouquinho de noite em certos horários. O trauma vai apaziguando… É assim que tem que ser, né?
Em casa tudo continua bem, só o que tá estranho é a minha cabeça que teima em buscar mais problemas, como a possibilidade remota de o assaltante ou algum comparsa dele ou o traficante pra quem ele entrega o celular seja um gênio do crime e roube minhas fotos de família, agenda e ameace algo ruim como um sequestro ou algo assim. É a mente entrando no jogo que ela gosta, de manter-se ocupada e causando tumulto na alma, e mesmo que todos me digam pra ficar calma eu não fico, até mesmo quando já liguei pra operadora e bloqueei o funcionamento do próprio aparelho. Essas atitudes você toma e elas demoram um delay ainda pra dar resultado no apaziguar do espírito, mas uma hora bate.
Choque de paz Acho que o que a gente tá precisando mesmo é de um choque de realidade, de paz, de entendimento e de compreensão… O que significam essas palavras? Só cada um que lê ou escreve ou sente pra saber. Realidade de ser realista sem ser pessimista nem otimista demais, de saber que se dá sorte algumas vezes e outras se dá azar. Paz pra poder seguir em frente e, depois de mais de 12 horas, voltar àquele estudo e trabalho interrompido pelo choque de realidade. Entendimento pra entender que a vida é surpresa e pode ser muito pior do que se espera, assim como também pode ser melhor. E compreensão pra entender tanto a dificuldade de se seguir em frente quanto a necessidade disso.
Estou aqui escrevendo como sempre fiz desde os sete, oito anos de idade, escrevendo pra entender, como medito pra entender, como às vezes rezo sem ser religiosa pra atingir a paz, pra guardar um pouco de divindade na alma. Isso é um bom sinal, estar aqui escrevendo, como sempre é…
Que possamos viver bem apesar dos choques de realidade que a vida nos traz todos os dias. E conviver com notícias ruins como a doença de um ente querido, e com a morte de um ente querido de uma pessoa querida, como eu fiquei sabendo ontem logo depois que fui assaltada. E que a alma das pessoas tenha paz. E que a gente ainda possa ser forte independentemente disso. E que as esperanças não sejam finitas.
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