Ido-um-dom

O perdi há tempos, quem sabe nunca o tive.
O dom da palavra falada me escapa.
Entonando sons com gestos, minha mente tende à confusão:
o fusível cai,
fuzilamento de ideias.

A paranoia interpreta olhares, ao emitir sons:
Estou sendo julgada.
Por mim? Pelos outros?
Nesse momento de cristalização da desconfiança, tudo é ameaça.
A incapacidade se torna mais que dúvida, se torna certeza.
A incapacidade de trazer relevâncias,
a certeza de ser irrelevante.

Aprendo cada dia a me calar.
Dando vazão, menos ou mais, à sensação de uma perdição inexorável,
vou me calando para o mundo,
me torno pensamento quieto, recluso.

O sonho é o de um dia poder vomitar tudo que tento pensar em palavra calada
em letras, em encadeamentos com sentidos macios, profundamente livres.
Vou me relegando a um estado de monastério,
o monastério da mente, das letras, da perfeita ilusão do controle da vida,
do perfeito equilíbrio instável dos fazeres, dos deveres,
para que um dia, me sinta enfim capaz de, não mais,

calar.

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