O que te cria


A minha criatividade vem em forma de pensamentos. Que se transformam em palavras, e que naturalmente, transformam também minha vida, pois convertem, um pouquinho a cada vez, quem eu sou, e mudam as cores da minha experiência.
Algumas pessoas conseguem traduzir sua criatividade em outros materiais: ideias que viram notas musicais, cor na pintura, formas, imagem em ação, filmes, roteiros, e por aí vai. A genialidade da raça humana em produzir especificidades de cada mente – e espírito – e, no contato com o outro, dar-se conta de que são universais. Universais porque algo criado por um é capaz de tocar a existência do outro, encontrando abrigo para sentimentos compartilhados.
No meu caso, eu não sei a que extensão essa universalidade chega. No meu reduzido público – algumas amigas, alguns amigos, alguns poucos familiares -, às vezes recebo o relato de uma coexistência de tempos, experiências, sentimentos que coincidem com o que eu, em meus pensamentos, traduzi em palavras.
Talvez seja para isso que eu esteja aqui hoje. Talvez eu sempre tenha sabido disso. Que a expressão sempre foi o ímpeto maior da minha existência, principalmente por meio das palavras, mas também da dança, às vezes do canto, embora o sonho de viver de música tenha tido suas raízes arrancadas há bastante tempo.
Enfim, o que fica é o que precisa ficar. E nisso a palavra insiste, porque o pensamento insiste. Em mim insiste a vontade de cavar os sentimentos – meus e dos outros, quando tento, através da empatia, alcançá-los. Cavar, e olhar nos olhos deles, e destrinchar, com mais ou menos dor, os motivos de suas existências. Racionalizando, mas também sentindo, mas também transcendendo. Mas sim, sempre pensando, admito, porque a palavra requer pensamento.
O que há de universal nisso eu não sei. Somos tantos, eu encontro poucos no caminho, sou pequena. Mas é daí que vem, do pensamento, que talvez venha do sentimento, que vem do estar aqui, presente. Quanto mais presente, mais respiração, mais vivência, mas também mais tempo: aí nasce a minha criatividade.
Eu busquei maneiras de entender o meu processo. Busquei em trabalhos, em cursos, em crenças – que seja a crença de que há algo em específico em que devemos ser muito bons e continuarmos fazendo. Ser “muito bom” pressupõe nesse caso o julgamento alheio (porque socialmente ninguém nem nada é considerado “bom” apenas por si), o que também, na organização social da nossa vida, em última instância significa “sucesso” (dinheiro, reconhecimento). Daí eu já não sei, eu sigo aqui escrevendo, eu sigo aqui pensando, e provavelmente vou seguir, enquanto tiver lucidez pra isso. Mas busquei, como dizia, maneiras de entender o meu processo e, na comunicação, nos textos, até no jornalismo, e finalmente na escrita e no estudo acadêmicos, eu continuo buscando. E gosto de tudo isso, sim. Não posso me dizer infeliz pelas experiências, tudo me formou. Também não posso negar que as cobranças (hoje em dia, muito minhas, mas que um dia vieram de fora, em cada caso mais ou menos propositadamente) pesam, porque nessa busca, desde a adolescência, eu nunca declarei uma continuidade, eu nunca quis prometer nada a ninguém, nem a mim mesma. Existir, por si só? Fazer, e fazer, e fazer. Criar, dentro de suas possibilidades. Quem tem o privilégio de criar, amém.
Eu espero que você conheça a sua criatividade, assim como hoje eu me dei conta da minha (eu sempre soube que ela estava ali). Criar pensamentos e transformar em palavras. Você tem tempo para pensar sobre a sua?


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